quarta-feira, 9 de julho de 2008

Eu vivo num sofá



À noite as ruas entram-me pela boca a dentro
e fecham-me na cara a possibilidade de ver
quem passou por mim.
este sofá onde me sento e assento o poema
Os cheiros de mortos
Sobretudo gatos tresmalhados e fotografias
da avô que se sentava aqui com lãs
queixumes e Alzheimer no regaço, teceu-nos
a sua história com a morte
em como teve a oportunidade de trocar umas palavras
sensatas com a vida e com jogos-de-gatos em cima da cama
onde envelheceram os anos das ruas que por aqui pisaram.
E eu nao estou com a alva loucura por mim a baixo, fiquei como
o Jaimemorto e aprendi depressa a amar o papel de parede que respira
as 40 vozes 40 anos antes de os ter conhecido; Sei bem
por onde ando - tenho os pés na cabeça que
é por onde me leva a noite,
Assim não me esqueço dos cheiros das memórias
nem das explosões capilares da avó que ascendiam
à ubíqua forma das fotografias deste sofá, em cima da mesa
onde me deito
Porque sei que é pela cabeça que as ruas me levam,
onde toda a luz que entra tem uma história escrita nas paredes,
E sei que neste sofá me sento sozinha.


2 comentários:

Ana Odisseus Pedrus disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

maravilha! Quanta criatividade e bom escrever.