domingo, 10 de outubro de 2010

Morrem mais de mágoa

A morte vai fumando dos meus cigarros, mas outro rasto, que não é o do fumo, se escorre; É certamente a ilusão de que tudo o que é meu se perdeu em tabacos emprestados à sombra daquilo a que chamávamos casa: tudo o que foi rua, nevoeiro e chuva; À noite - e que branca noite - luzes demasiado amareladas que explicaram melhor o que escrevias do que o próprio papel (diga-se que foi precisamente o contrário da habitual e barroca cena fílmica: a noite leva ao papel); cafés mal amanhados e até mesmo um espaço que alcançaste numa tentativa de perceberes que, estando povoado, não trazia nada se não o cheiro a cor ócre, indicador de que «estiveste aqui, e por pouco não te apanhei». Tudo isto para no fim nem ser necessário quereres lembrar-te que o Senhor Russo tinha uma barba grande mas que a nossa ficou maior. Não creio que a morte me esteja a tentar passar a perna, mas a verdade é que até os cigarros que são agora apenas cor ôcre os fumou, e se amontoam como tumores que não vemos. Mas sim, sei que os tumores são meus e nunca te abandonaram.

1 comentário:

Gabriela Lacerda disse...

É por isto, e não só, que gosto de ti.
Beijo e uma boa semana!