Para a Maria,
O medo vai nos perseguindo e nós, em surdina, vamos escrevendo valsas maravilhosas. É o som dos velhos tempos que cheira ainda a algo novo. Todos sabemos que o ouro pesa o que memórias de guerra não pesam, pois ainda que isto seja tudo mensurável, os cheiros nunca deixarão de nos enganar. Por exemplo, o medo lembra-me orquídeas. As orquídeas não nos deixam nada se não a ideia daquilo que é a proximidade entre uma mão estendida ou daquilo que é a derrota, e de uma outra coisa não menos violenta que é o sexo. Entenda-se, nem sempre a mão se estendeu: foi obrigada à violência das imagens, foi obrigada a exibir uma beleza que é tão ingénua quanto má. O som destes amores é algo piedoso, porque se movimento por de trás de todas as coisas visíveis e invisíves.
Afinal, o que é o medo se não aquilo que está a crescer no musgo do muro que já albergou energúmenos de calibre tão hostil como gatos, beijos, e entre saias menos entendidas, algumas promessas para a vida. O que é o medo senão aquilo que cresce nas vísceras de quem sabe o que é estender a mão à derrota, mas que sabe que o fim que lhe está destinado cabe ao sangue, e não è terra. O que é o medo se não uma criança que percebe que uma flor deixa de o ser quando é roubada à terra, e que por essa altura, possivelmente 30 anos mais tarde, algo mais lhe terá roubado à infância. O que será o medo se não o triunfo, a agonia, o ser, o que é do ser, daquilo que diz ser-se o ser. Enfim, de tanto medo que temos, damos por nós a querer muito morrer de alguma coisa, isto é, se não quisermos morrer do medo.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
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